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Os fanáticos

Quinta-feira, 29.10.15
 
 

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Ultimamente há uma invasão de “mails” pró e contras “Passos/Paulo” versus A. Costa, desde montagens fotográficas a convenientes lembranças do passado.
Interessante é uma comparação entre os fanáticos comentadores do futebol e a maioria dos políticos.
As suas falas são igualmente uma mistura de cegueira, de facciosismo, de mentira, de hipocrisia e de manipulação dos factos.
Ainda ontem assisti incrédulo aos insultos, aos gritos de fanáticos sportinguistas e benfiquistas nos programas desportivos dos canais televisivos de informação. Nem queria acreditar no comportamento daquelas personalidades cegas pela “clubite”! Porque o árbitro assim e assado. “Cale-se, não me interrompa”. “Mentira, mentira”. “Agora sou eu que falo”. Etecetera. Uma falta de vergonha.
O pior é que o cidadão não tem alternativa para onde se virar. As gritarias e os insultos continuam de canal informativo para canal informativo, dedicados no mesmo horário àquele ópio; duas ou mais vezes por semana.
Na política não é bem o mesmo porque a introdução é sempre laudatória: “tenho a maior cordialidade e o maior respeito intelectual por si, mas...” e seguem-se insinuações e acusações mais ou menos educadas. Uma falta de pudor.
E nós, os que pagamos aquilo tudo, não podemos alterar nada excepto com eventuais manifestações (com inevitavel associação parola à perigosa esquerda) ou desligando a televisão e perder, assim, o que a actualidade tem de interessante.
Parem com isso, parem com mentiras e insultos. Parem.

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O mais grave é que o problema não é o de saber se o pontapé nas partes baixas do jogador fulano teria que merecer um cartão amarelo ou não (para mim e naquela região seria vermelho), o problema não está no futebol e nas suas patéticas misérias, o problema está sobretudo e imperdoavelmente na política e na governação, nas mentiras e enganos dos partidos do “arco da governação” antes e depois das eleições.
Isto sim é grave e mereceria uma drástica legislação que conduzisse ao saneamento da vida política nacional a qual, há muitos anos, é uma autêntica pornográfica mistura de interesses pessoais e “institucionais”, nomeadamente com a finança e a maçonaria.
Não? Relembrem Costa e as suas declarações sobre o BE no programa “Quadratura do Círculo”. Não? Relembrem as promessas eleitorais de Passos Coelho nas eleições de 2011, quanto a salários e pensões. Não? Relembrem as promessas de anteontem da coligação PáF (termo que lembra sonoramente “estalada”) quanto à redução da sobretaxa do IRS que, num só mês, se reduziu de 35.3% (antes eleições) para 9,7% (pós eleições). “Que é porque isto e por aquilo,...que a culpa é de...e não de...”.
Pois, fala que "minstróis".

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publicado por alea às 15:09

Fado e fadas

Domingo, 25.10.15
 
 

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A palavra “ fado” vem do latim “fatum”, ou seja destino.
Esta sua raíz etimológica é a mesma de “fada”, ser mitológico. Têm o mesmo número de letras, as mesmas consoante e as mesmas duas vogais.
Em Portugal, fadas houve poucas, mau grado a nossa raíz celta, mas podem destacar-se, pelas suas acções, a raínha Isabel de Aragão (que sarcastica e santamente alumiava o caminho - dai a designação de Lumiar - das escapadelas do marido D. Dinis às freiras de Odivelas) que evitou uma guerra civil, Filipa de Lencastre mãe da “ínclita” geração, D. Catarina de Austria regente e avó protectora do louco D. Sebastião mas que não conseguiu evitar o morticínio africano por oposição de subservientes e irresponsáveis cortezãos e D. Luísa de Gusmão mulher do timorato D. João IV sem cujo incentivo não teria havido a independência dos castelhanos filipes.
Quanto a fados, a história portuguesa é ela mesmo um fado que começou com D. Henrique de Borgonha no século XI.
O fado conduziu ao actual território de Portugal.
Inicialmente, era um condado entre o rio Douro e o rio Minho. Posteriormente, alargou-se até ao rio Mondego (Coimbra foi a capital de Portugal até 1255, ano em que D. Afonso III mudou a capital para Lisboa) e a norte prolongou-se efemeramente para além do rio Minho pela actual Galiza (ela sim nossa irmã, pelo povo e pela língua) até ao desastre de Badajóz. 

Para sul, D. Afonso III conseguiu incluir, com o tratado de Badajóz (1267), o reino do Algarve no reino de Portugal.
O nosso território dá forma a uma nação com as mais antigas fronteiras na Europa pelo tratado de Alcanizes (1297) entre el-rei D. Dinis e D.Fernando IV de Castela.
Houve, também maus fados:

O desastre de Badajóz, a guerra civil entre D. Sancho II e o seu irmão D. Afonso III, o fatal embeiçamento de Fernando “o Formoso” pela belíssima Leonor de Teles, a bancarrota do beato D.João III, a catástrofe de Alcácer Quibir, a perda da independência com o desgraçado domínio dos filipes castelhanos, as invasões napoleónicas, a guerra civil entre os irmãos Pedro e Miguel, as trapalhadas do final da monarquia, as barbaridades da revolução republicana, o PREC, os actuais agentes políticos e as suas redes de interesses.
Vem tudo isto a propósito da actualidade política portuguesa que só o toque de uma varinha mágica teria o poder de alterar um desolador fado.
O Sr. Silva, garante do regular funcionamento das instituições democráticas, nas justificações que apresentou no passado dia 21 de Outubro sobre a nomeação do primeiro-ministro (decisão em si sem qualquer contestação e correcta mas que prescindia de quaisquer comentários) deitou petróleo na fogueira ostracizando cerca de um milhão de eleitores que votaram em partidos da esquerda e que estão para além do denominado “arco da governação”.
Caracterizou facciosamente e no limite da correcção política partidos da esquerda, excedeu os seus poderes constitucionais ao criticar programas partidários, apelou irresponsavelmente à violação da disciplina de voto no parlamento, acentuou as existentes fracturas partidárias e acordou preocupações de um exterior “adormecido” sobre o futuro de uma governabilidade à esquerda a qual, aliás, nem sequer é novidade na Europa de hoje e de ontem.
Saíu-lhe o tiro pela culatra com o “toque a reunir” de toda a oposição, de que foi prova, logo no dia seguinte, a derrota dos partidos da direita com a eleição do Presidente da Assembleia da República, segunda figura do Estado, na pessoa de um dirigente do PS que obteve por voto secreto o apoio de 120 dos 122 deputados da esquerda (dois votos em branco).
Com este fado e sem fadas, ó Bordalo, ó Bordalo, que falta fazem os teus desenhos para abrir os olhinhos à malta.

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publicado por alea às 12:09

O camarada Arnaldo

Terça-feira, 20.10.15
 
 

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Arnaldo Matos o “Grande educador da classe operária” (personagem política exemplo de corajem, seriedade e coerência política), preso pelo COPCON em Caxias após o 25 de Abril, reapareceu agora.
Tenho dele viva memória dos tempos do PREC.
E o que vem agora decidir e declarar o camarada Arnaldo?
Decidiu (ele não, claro, os órgãos do partido) suspender Garcia Pereira e outros pelos maus resultados eleitorais do MRPP.
Que diz ele (assinado no editorial do passado dia 11 de Outubro do “Luta Popular”?
Que:
“(...) o mentecapto presidente da república, que nos calhou ter em sorte nesta altura, bloqueia a norma do nº 1 do artº 187º da Constituição da República e está a sabotar a formação do governo que haverá de sair da assembleia eleita (...) Assim, já se passaram oito dias, e o palonso que temos em Belém nem sequer começou ainda a ouvir os partidos representados na Assembleia da República, nem nomeou ainda o primeiro-ministro, tendo em conta, como o reclama a norma constitucional, os resultados eleitorais.
(...) Cavaco vai para a rua, com a condecoração popular de indecente e má figura (...) e, se calhar, julga poder passar estes cinco meses que lhe faltam para ir pentear macacos a inventar pretextos para impor ao país um governo de maioria absoluta, juntando na mesma cama Passos, Portas e Costa, o que, diga-se de passagem e sem réstia de homofobia, é pouca mulher para tanto homem.
(...) Política de esquerda esta? Isto não é política de esquerda. Isto é tudo um putedo!”
http://lutapopularonline.org/index.php/editorial/1767-a-classe-operaria-e-o-momento-politico-actual

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Uma delícia.
Não saboreiam apenas: isto é tudo, de facto, um p..., termo que, embora não figure no dicionário da Academia das Ciências, tem entendimento bastante claro e que se ajusta perfeitamente e há anos à situação política portuguesa e aos seus principais protagonistas.

 

 

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publicado por alea às 14:56

Ventos e tempestades

Domingo, 18.10.15

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No próximo dia 21 de Outubro o Sr. Presidente da República, para efeitos do disposto no art.º187 da Constituição da República, vai iniciar a audição dos partidos com representação parlamentar.
Amanhã, 2ª feira, vai ter uma reunião com Pedro Passos Coelho.
Tendo em atenção as características políticas e pessoais de Sua Excelência e as declarações por ela proferidas no decurso do processo eleitoral no que respeita à indigitação de um novo governo, a curiosidade é nenhuma.
De facto, o seu manto protector dos interesses do PSD esteve sempre presente, a sua inesquecível confissão de ter muito reflectido sobre todos (todos) os cenários - ao ponto de não ter comparecido às comemorações da instauração da República no passado dia 5 de Outubro - e as suas comunicações ao país (“soluções governativas construídas à margem do Parlamento, dos resultados eleitorais e dos partidos políticos” não serão admissíveis; “os portugueses têm o direito e o dever de exigir um Governo estável em duradouro“, “é extremamente desejável que o próximo Governo tenha um apoio maioritário e consistente na Assembleia da República”; “que fique claro: nos termos da Constituição, o Presidente da República não pode substituir-se aos partidos no processo de formação do governo e eu não o farei”) suscitam poucas interrogações sobre o desfecho daquelas reuniões. “Tínhamos imaginado todas as possibilidades (…) estamos a seguir os passos que mais ou menos tinham ficado delineados” (atente-se no “nós” majestático). Isto no que respeita ao Aníbal.
Quanto ao António, lançou-se numa impossibilidade orçamental: o aumento da despesa, a redução da receita e a diminuição da dívida e do deficit. É a quadratura do círculo. O desfecho das suas negociações com a CDU e o BE não é tão claro como por aí se anuncia.
Finalmente, no que respeita à dupla Pedro/Paulinho, é inevitável estarem a sofrer as consequências da sabedoria popular: “quem semeia ventos colhe tempestades”. O mau semeador é o responsável pela qualidade da colheita e as tempestades são o resultado da natureza ou da irresponsabilidade ou da incompetência humanas.
Portugal vive hoje na incerteza política e na certeza (que só cegos mentais não admitem) de se manifestarem no curto prazo as consequências de uma não curada doença financeira. Prenúncio? As recentes preocupações da CE sobre o Orçamento de Estado para 2016.
Porquê incerteza? Porque se semearam ventos.
Ventos de arrogância e de ameaça. Arrogância numa governação de quatro anos que foi cega, surda e muda a qualquer tipo de entendimentos e que, por facciosismo ideológico ou por incompetência política, acordou muito tarde para essa necessidade. Resultado? O actual impasse com o maior partido da oposição.
Ventos de ameaça do “nós ou o caos”, de “nós ou o regresso da Troika”, de “nós os que resolveram uma grave crise com o povo e o seu pacífico sacrifício” (suprema e despudorada hipocrisia). O “flop” financeiro continua à sombra da dissimulação e da mentira com a conivência dos cérebros europeus: o deficit e a dívida pública continuam presentes e cada vez maiores. Existe uma crise do sistema bancário português, de que o escândalo do BES é apenas uma ponta a descoberto. A soberania financeira não se recuperou, contrariamente ao repetidamente afirmado do só agora europeísta vice-primeiro-ministro PP.
Ventos de subserviência e de perda de soberania, confirmados pela recente exigência da Comissão Europeia para a apresentação das linhas do orçamento de 2016, independentemente dos indiscutíveis constrangimentos políticos que Portugal hoje vive, ao recusar a proposta que lhe foi comunicada pelo o ministro das finanças a Sr.ª Dr.ª Maria Luís: as principais medidas do orçamento “têm que” ser-lhes comunicadas “já” e não após a constituição do novo governo.
Seja como for, o ainda governo que as apresente, no âmbito das suas actuais responsabilidades, não para satisfação da exigência da CE ou do pedido do PS mas, sobretudo, para informação do cidadão português.
Tanta hipocrisia, tanto jogo de cintura, tantos interesses, tanta mentira.
Uma tristeza.

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publicado por alea às 15:32

Soltura

Sexta-feira, 16.10.15
 
 

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Libertada a fera política.
Hoje, agora, o Sr. Pinto de Sousa (porque de engenheiro nada tem, de acordo com a sua prática profissional e as acreditações da Ordem dos Engenheiros) foi libertado, embora impedido de contactar outros arguidos no processo de que é o principal arguido e noutros (Grupo Lena, Vale de Lobo e CGD) e de saír do país sem autorização.
Esteve mais de 9 (nove) meses preso na cadeia de Évora (desde 25 de Novembro de 2014) e em prisão domiciliária desde o mês de Setembro do corrente ano.
Porquê? Por suspeição de fraude fiscal qualificada, branqueamento de capitais e corrupção (atente-se à natureza dos crimes), cujos indícios, recolhidos nos autos, o Ministério Público considera, também hoje, que “se mostram consolidados”.
A “fera” foi Primeiro-Ministro de Portugal acompanhando na vergonha outras figuras europeias, suspeitas, por exemplo, de tráfego de influências e de corrupção.
O Sr. Pinto de Sousa, juntamente com o Sirisa, foi um veneno eleitoral para o PS, utilizado como arma pelo PáF nas eleições legislativas que tiveram ontem o seu fim com a os resultados de todos os círculos eleitorais.
O Sr. Pinto de Sousa pode ser uma “fera política” mas o seu curriculum é uma sequência de vergonhas profissionais.
Eventuais qualidades de liderança podem superar o comportamento ético? A História está cheia de interrogações desta natureza e, em geral, a resposta é não.
Veremos se o cidadão não terá que pagar mais uma factura.

 

 

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publicado por alea às 23:22

Assim não.

Quinta-feira, 15.10.15
 
 

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Compreendi o comportamento inicial do António Costa, certamente avalisado pela Comissão Política do PS e totalmente conforme ao discurso eleitoral: o PS não será uma oposição negativa e uma inviabilização de um governo do PáF, por voto favorável de uma moção de rejeição ou por voto contra um orçamento, só seria concretizado com a certeza de existência de uma solução de governo alternativa.
Qual? Um governo PS com o apoio parlamentar do BE e da CDU.
Até aqui tudo muito bem.
O que não está de maneira nenhuma bem, é uma negociação eventualmente pró-forma e hipócrita com a coligação PáF, conversações políticas e técnicas com os partidos à esquerda do PS para apresentação ao Presidente da República de uma alternativa de governo para efeitos do disposto no nº1 do art.º 187 da Constituição  (“O Primeiro-Ministro é nomeado pelo Presidente da República, ouvidos os partidos representados na Assembleia da República e tendo em conta os resultados eleitorais.” Nada, absolutamente nada é referido sobre o "partido mais votado" como é afirmado por vários comentadores políticos.).
Isto não, mas tudo parece ser assim e se tal se confirmar é uma nódoa: a aversão pelo PáF e pelos seus líderes Passos e Portas tem limites que a ética política impõe (só que neste país e a todos os níveis a ética é uma noção muito nebulosa e discutível).
O que seria correcto? O PR encarregar o vencedor das eleições de formar governo, o governo apresentar programa e orçamento na Assemleia da República e, depois, cada partido ficar responsável pelas consequências da sua votação.
Um governo assim constituído ficaria obrigado a negociação sistemática com o PS? Que assim seja porque tal também é consequência do resultado das eleições.
Um governo de gestão uma vez que a dissolução da AR e a convocação de novas eleições só é possível depois de Abril de 2016? É assim por força constitucional. Está mal? Que se revejam pertinentes revisões constitucionais em sede e tempo próprios.
A arrogância, brevemente melosa, do PáF mantém-se como se nada tivesse acontecido, só que aconteceu uma muito substancial alteração das condições de governação que não pode ser ignorada: a coligação perdeu a sua maioria.
Há um problema? Há, mas o PS, podendo e devendo lembrar a sua oposição à política seguida no passado pela coligação e sublinhando (porque não?) o papel relevante que passaram a ter o BE e a CDU (quase 20% dos eleitores), tem que ter um comportamento claro, coerente e acima de qualquer suspeita, doa a quem doer.
Impôr o seu programa eleitoral para um acordo parlamentar com o PáF? Não pode ser considerado como uma credível postura negocial.  

Não se trata de uma questão de ilegitimidade política, que não existe, mas de confiança e de seriedade negocial que exige não transformar uma clara derrota eleitoral numa fictícia victória.
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publicado por alea às 15:10

A encruzilhada

Domingo, 11.10.15
 
 

Depois da “Mudança” apareceu a “Estabilidade governamental” e a “Balbúrdia Política” (balbúrdia entendida como “circunstância tumultuosa” e não como despeito traduzido por “obscenidade política”).
Apareceu também um visível “estado de choque” no PáF.
Aqui vão alguns factos numéricos:

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A reter na comparação dos resultados eleitorais de 5.380.450 votantes (Art.187 da Constituição da República):
- Coligação pré-eleitoral PSD/CDS (PáF): maioria parlamentar minoritária com programa de governo já acordado, representando 38,34 % de votantes.
- Eventual acordo pós eleitoral de esquerda para maioria parlamentar (difícil, problemático, contestado e sem programa comum), representando 50,87% de votantes.
A coligação PáF obteve cerca de menos 670.000 votos do que o conjunto dos partidos de esquerda com representação parlamentar e menos 17 mandatos, não estando contemplados nestes números os votos obtidos pelo CDS na Madeira (apenas 7.536 votos e nenhum mandato), nem os votos dos emigrantes (cerca de 242.000 votos com mandatos por apurar), nem os votos dos partidos de esquerda sem representação parlamentar, nomeadamente o PCTP/MRPP e o Livre (cerca de 131.000.000 votos e nenhum mandato).
Pergunta-se: pode ser nomeado um primeiro-ministro que não seja da coligação com mais mandatos? A resposta é sim.
Para uma nomeação, o Presidente da República é apenas obrigado a ouvir os partidos políticos tendo em conta os resultados eleitorais. Assim, poderá nomear o candidato do segundo ou do terceiro partido mais votado com o objectivo de uma coligação governamental que assegure uma estabilidade governativa.
O PS derrotado tem, de facto, a última e decisiva palavra. Qual?
Eventualmente a mais segura é a de um governo PàF com o PS como principal e decidida oposição. A sistemática negociação ficará permanentemente instalada no governo viabilizado pelo PS.
Para este efeito, a dupla PSD/CDS, que de arrogante se apresenta hoje em dia melosa e conciliatória, vai ter que ignorar críticas do passado recente e alterar significativamente o seu programa de governo em nome de um superior interesse nacional.  

Afastada a hipótese de um governo de coligação maioritário PS/BE/CDU, por defraudar os eleitores daqueles partidos e de não poder ter um programa comum em áreas tão importantes como o Tratado Orçamental, a política fiscal, a Europa, o euro e o controlo da despesa pública, resta o cenário de um governo minoritário do PS com o apoio parlamentar do BE e da CDU. Possível? 

Sim, desde que o PCP abriu expressamente essa porta para espanto de todos. No entanto, terá que haver claros e detalhados compromissos escritos: uma navegação à vista dependente de solavancos de circunstâncias políticas terá que ser afastada com segurança.
Por outro lado, o PS encontra-se numa posição complicada e difícil estando já a acentuar-se as existentes fracturas internas. Decidiu ouvir e falar com todos os partidos com mandatos parlamentares: a coligação CDU abriu os braços e a reunião com o PàF revelou-se segundo o PS “bastante inconclusiva (...) por falta de propostas concretas”. Para a semana, haverá reunião com o BE e o Sr. PR resolveu conversar também com o PS, ignorando CDU e BE os quais, no entanto, representam cerca de um milhão de eleitores.
A questão central é a incompatibilidade, por um lado, entre o programa eleitoral do PS e a política apregoada durante a campanha eleitoral pelos que estão à sua esquerda e, por outro, com as medidas de privatização e de austeridade implementadas pela coligação governamental de cuja continuidade não se duvida.
O cenário de novas eleições no curto/médio prazo não é de excluir, tal como uma substituição na liderança do PS e, a prazo, um seu significativo enfraquecimento eleitoral em benefício do Bloco, dependendo tudo do estado em que se encontra a encruzilhada.  

Enfim, Deus já traçou o futuro.
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publicado por alea às 19:43

A mudança

Segunda-feira, 05.10.15
 
 

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O povo soberano pronunciou-se e, de acordo com alguns comentadores políticos, comportou-se como as formigas: existe um misterioso mecanismo pelo qual uma sabe o que querem milhares de outras e comportam-se em conformidade, seja para uma defesa colectiva seja para anunciar uma importante descoberta. “O que significa” (como diria o Pedro) o seguinte.
O povo não queria despedir a dupla Pedro-Paulo mas também não queria que eles continuassem a mesma política de austeridade e a comportar-se com a arrogância e prepotência do passado. Governar com maioria absoluta não é nada o mesmo do que governar em minoria e por decisão democrática, o povo decidiu que Pedro-Paulo vão ter pela frente uma realidade diferente e uma dolorosa obrigação: não poderão voltar a enganar ou a esconder e vão ter que cumprir as promessas eleitorais (o que na campanha que decorreu se revelou totalmente irrelevante na aferição da “confiança”).

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A renovada dupla vai ter que apresentar ao Parlamento um programa de governo que seja simultaneamente conforme às promessas eleitorais - nomeadamente a reposição de pensões e de salários e uma redução da carga fiscal - e às exigências orçamentais - em particular o controlo da dívida pública e do déficit.
Dilema que não chega a sê-lo e para cuja solução não é necessário recorrer à Teoria dos Jogos: as indefinidas promessas eleitorais da coligação PSD/CDS (nunca vertidas num programa eleitoral), embora não sendo mais do que a continuidade da política prosseguida durante 4 anos não serão novamente cumpridas porque incompatíveis com os objectivos centrais do deficit e da dívida pública, os quais, aliás, o actual governo não conseguiu cumprir como se verá no final do corrente ano: o deficit será superior a 2,7 % e a dívida ultrapassará os 123,7 % do PIB.
É um azar dos Távoras que conduzirá, no futuro, à produção pelo Pedro de um saco de “sim mas ou não mas”, com várias cores e formas, justificando aquilo que prometeu e que não poderá cumprir.
O cidadão, muito recentemente acariciado e louvado com repetida humildade pelo Pedro e pelo Paulo, vai depressa aperceber-se que na futura política governamental - em nada igual à prosseguida durante o período eleitoral que muito cedo se iniciou e que apenas foi um interregno – a política de austeridade continuará e que tudo será mais do mesmo: cortes nas pensões e outras prestações sociais, despedimentos na função pública, redução dos serviços do Estado na educação, na saúde, na justiça, na cultura, etc. Que é inevitável dirão, pois sim talvez mas então que o proclamassem preto no branco sem subterfúgios.
Mas toda e qualquer iniciativa política será feita com uma enorme diferença:
A oposição, que é agora maioria no Parlamento, terá uma palavra decisiva e não será possível uma invocação do passado pela renovada dupla PSD/CDS para lembrar más decisões e justificar contestáveis politicas, como reiteradamente fizeram com a herança recebida de outros. Agora, a herança é própria.
Não se esperam surpresas por parte da coligação CDU que manterá quanto à Europa a sua visão política, mas o que virá do Bloco de Esquerda que foi o vencedor destas eleições? Uma aproximação ao PS, grande derrotado da eleição, e uma oposição “construtiva”? Ou uma política totalmente autónoma e radical de oposição? E o PS? Mergulhará numa guerrilha interna entre os que desejam uma aproximação ao centro e os que defendem uma união com a esquerda, viabilizará provavelmente o programa do novo governo em nome da estabilidade governativa e do ideal europeu, será fiel ao seu programa eleitoral que não se cansará de lembrar ao discutir taco-a-taco medidas e pacotes legislativos (em particular no que respeita à segurança social e à política fiscal) e sublinhará o seu papel central na sobrevivência do governo.
Assim, não é irrelevante observar algumas das novas realidades da composição parlamentar.
A coligação de direita ficou com 104 deputados (86 do PSD e 18 do CDS) perdendo 11 deputados, o PS ficou com 85 deputados, ganhando 12 deputados, o BE (o vencedor das eleições) mais do que duplicou o resultado de 2011, passando de 8 para 19 deputados (mais 1 do que o CDS), a coligação CDU passou de 16 para 17 deputados.

Resumindo: 104 deputados à direita versus 121 à esquerda e ainda 1 do novo partido PAN (partido das pessoas, dos animais e da natureza).
É muito, é pouco? É o suficiente para travar a continuidade de uma governação que obteve a oposição da maioria do eleitorado e, para o bem e para o mal, marca o perfil da incerteza da tão desejada estabilidade governativa, perfil esse traduzido, paradoxalmente, na importância incontornável do PS, grande derrotado da eleição.

 

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publicado por alea às 20:57






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