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A "burka" em Portugal

Terça-feira, 19.08.14

Do blog “Trajes de Portugal” transcrevo, pela sua actualidade (vide o actual impacto do uso da "burka"em países europeus, nomeadamente em França) e interesse, excertos do artigo de Agosto de 2006 relativo ao uso do traje feminino que hoje em dia se poderia chamar “burka” ou “chador”

 

(…) A Côca, o Biuco e o Capelo são três trajes de diferentes regiões, Alto Alentejo, Algarve e Ilha Terceira (Açores), no entanto, apesar da distância geográfica existem muitas semelhanças entre eles e uma história comum.

(…) São Paulo introduz o costume das mulheres cobrirem a cabeça para que se distingam das mulheres descobertas ou meretrizes. Entrar na igreja com a cabeça coberta era sinal de respeito, submissão e humildade perante Deus (...).

Não se sabe quando este tipo de indumentária foi introduzido em Portugal, no entanto, podem-se encontrar registos da sua utilização desde 1609, no reinado de Filipe II, e existem autores que defendem a sua origem árabe.
(…) A sua utilização destinava-se a impedir o contacto da mulher com os transeuntes que com ela se cursassem na rua, ocultando a sua identidade. Para além de isolar a mulher do mundo exterior, permitia-lha também alguma liberdade, já que não sendo identificável podia movimentar-se livremente oculta dos olhos castradores da moralidade alheia.


Estes três trajes femininos possuem pequenas variações, ou particulares alterações regionais, no entanto, a sua forma elementar baseava-se numa mantilha, com ou sem véu, amplamente distribuída, de norte ao sul do país, e que teve a generalizada denominação de biôco (ou biuco no Sul e rebuço no Norte).

Genericamente compõe-se de uma capa, mais amplas e compridas nos Açores e Algarve que no Alentejo, em cuja cabeça era coberta de forma a impedir que se visse a cara da sua utilizadora. É a forma como a cabeça é coberta que distingue os três trajes.


Côca –Alto Alentejo
                                                        

As côcas terão sido um traje de noiva na nossa região, na segunda metade do século XIX. (…) Mas, como traje de noiva acabou por cair rapidamente em desuso enquanto tal, passando a ser fundamentalmente moda nas mulheres aristocratas ou da alta burguesia de todas as idades, quando estas saíam à rua para assistir a actos religiosos ou nas visitas, (…). Na frente o biôco era armado em papelão, ou tarlatana, para se manter aberto. Em alguns, a renda era colocada (…) sobre a cara (…).

O biôco (ou biuco) – Algarve

                                          
Raul Brandão escreve a propósito do biuco no seu livro "Os Pescadores", em 1922:
" Ainda há pouco tempo todas (as mulheres de Olhão) usavam cloques e bioco. O capote, muito amplo e atirado com elegância sobre a cabeça, tornava-as impenetráveis.
É um trajo misterioso e atraente. Quando saem, de negro envoltas nos biocos, parecem fantasmas. Passam, olham-nos e não as vemos. Mas o lume do olhar, mais vivo no rebuço, tem outro realce... Desaparecem e deixam-nos cismáticos. Ao longe, no lajedo da rua ouve-se ainda o cloque-cloque do calçado - e já o fantasma se esvaiu, deixando-nos uma impressão de mistério e sonho. (…).

Trata-se de uma capa que cobre inteiramente quem a usava. A cabeça era oculta pelo próprio cabeção ou por um rebuço feito por qualquer xaile, lenço ou mantilha. As mulheres embiocadas pareciam “ursos com cabeça de elefante”
Oficialmente a sua extinção ocorreu em 1882 e por ordem de Júlio Lourenço Pinto, então Governador Civil do Algarve, foi proibido nas ruas e templos, embora continuasse a ser usado em Olhão até aos anos 30 do século XX em que foram vistos os últimos biocos.

O Capelo – Açores
                                                   
À semelhança de outras regiões também a mulher açoriana usava agasalho capotes com capelo, diferindo o seu feitio de ilha para ilha.
Leite de Vasconcelos visitou os Açores no Verão de 1924 e testemunhou o uso de mantos e capotes pelas mulheres da ilha Terceira (em comentário é dito que não, que é em S.Miguel) e do Faial. Com efeito até meados do século XX era frequente encontrar nos meios citadinos mulheres envoltas no seu capote preto e capelo armado (…).

Estamos assim perante três trajes, que para além da sua função de abafo, remete o papel da mulher para a total exclusão da sociedade, uma vez que, completamente coberta jamais alguém descobriria a sua identidade (…).

http://trajesdeportugal.blogspot.pt/2006/08/cca-biuco-e-capelo.html

 

Proibido usar burka ou do chador no Algarve desde 1892 .

                            

«Faço saber que pelo regulamento policial d’este Governo Civil, de 6 do corrente mes, com execução permanente, aprovado pelo governo, determino o seguinte:

Artigo 32º – É proibido nas ruas e templos de todas as povoações deste distrito o uso dos chamados rebuços ou biôcos de que as mulheres se servem escondendo o rosto.

Artigo 33º – As mulheres que, nesta cidade, forem encontradas transgredindo o disposto no precedente artigo serão, pelas vezes primeira e segunda, conduzidas ao comissário de polícia ou posto policial mais próximo, e nas outras povoações à presença das respectivas autoridades administrativas ou aonde estas designarem, a fim de serem reconhecidas; o que nunca terá lugar nas ruas ou fora dos locais determinados; e pela terceira ou mais vezes serão detidas e entregues ao poder judicial, por desobediência.

Parágrafo único – Esta última disposição será sempre aplicável a qualquer indivíduo do sexo masculino, quando for encontrado em disfarce com vestes próprias do outro sexo e como este cobrindo o rosto.

Artigo 34º – O estabelecido nos dois precedentes artigos não terá lugar para com pessoas mascaradas durante a época do Carnaval, que deverá contar-se de 20 de Janeiro ao Entrudo; subsistirão, porém, as mesmas disposições durante a referida época, em relação às pessoas que não trouxerem máscara usando biôco ou rebuço.

 

Artigo 41º – O presente regulamento começa a vigorar, conforme o disposto no artigo 403º do código administrativo, três dias depois da sua publicação por editais – Governo Civil de Faro, 28 de Setembro de 1892. – Júlio Lourenço Pinto.»

 

 

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publicado por alea às 23:11

Vergonha, vergonha, vergonha!

Quinta-feira, 07.08.14

                                

3.577 milhões de euros (cerca de 2% do PIB de Portugal) é o prejuízo anunciado pelo BES, considerado o maior banco privado português.             

Uma vergonha é o que isto é. Isto do BES/GES, “Novo Banco”, “Mau Banco”.

E perante esta calamidade o cidadão depara-se com olhos baixos ou com a irresponsável sobranceria de quem nos deveria governar. Digo “deveria” porque sendo o cidadão contribuinte paga para tal. Está-se como num avião em queda ouvindo “chá, café ou laranjada ou salgados”.

Vergonha para uma família cujo patriarca já falecido, deve estar a dar voltas na tumba, vergonha para o Banco de Portugal (BP) que deu explicitamente “luz verde” para que pequenas poupanças desaparecessem num aumento de capital, realizado há pouco mais de um mês, vergonha para a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) que deveria ter proibido tal operação e que segundo agora afirma foi “forçada” (!) a autorizá-la, vergonha para um governo que mentiu aos portugueses ao assegurar a solidez do sistema bancário português e cujo responsável se refugia a banhos sacudindo a água do capote, vergonha para um homem que durante vinte anos foi o responsável pela segurança das poupanças de milhares de portugueses, vergonha para esse homem que traiu as promessas feitas ao governador do BP e que em quinze dias colocou “a recato” (diz-se que algures em Singapura) cerca de mil e quinhentos milhões de euros, vergonha para a justiça portuguesa que ainda hoje ainda não colocou em prisão efectiva Oliveira Dias (BPN), João Rendeiro (BPP), Ricardo Salgado e outros que beneficiam da vergonhosa promiscuidade entre o poder financeiro (conjunto de malandros) e o poder político (outro bando de malandros).

Enfim, vergonha, vergonha, vergonha.

O Dr. Ricardo Salgado, indiciado por burla, branqueamento de capitais, abuso de confiança, e falsificação de documentos (!), proibido pelo tribunal de vários contactos e acções e sujeito a uma caução de três milhões de euros (não se iludam, tem-nos e vai pagá-los dentro do prazo fixado pelo tribunal) emitiu um comunicado (perdão, os advogados dele emitiram um comunicado) segundo o qual nada tem a dizer até serem conhecidas as conclusões da auditoria mandada realizar pelo BP.

É de quem não tem vergonha na cara. Ou calava-se, ou explicava-se (como fez recentemente em situação menos clara) ou, simplesmente, fazia um “mea culpa”. Todas estas hipóteses são muito difíceis para um “DdT” (dono de tudo) como era conhecido nalguns meios.

O Dr. Ricardo Salgado, bisneto de José Maria Espírito Santo, mandou, mesmo assim, a honra centenária da família às ortigas. E não foi só agora em Julho de 2014, mas também nas três rectificações da sua declaração de IRS do ano de 2011, rectificações essas num total de 4,3 milhões de euros. “Peanuts”.

Uma vergonha para ele, para a sua família e para os seus amigos que muito dificilmente (se forem pessoas de bem) conseguirão falar com ele sobre o assunto de olhos nos olhos.

“Shame on you”, Dr. Ricardo Salgado!                      

 

“Novo Banco”? Pois pois, “fala que minstróis”.

Não me espantaria que, brevemente, muita coisa suja aparecesse debaixo deste novo tapete.

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publicado por alea às 17:54

"Hermanos"?

Terça-feira, 05.08.14

                           

A visita de Filipe VI de Espanha - nome que só pode criar simpatias aos portugueses historicamente incultos ou que tenham memória curta, esquecendo-se que só com o quarto daquele nome terminou a desgraça do Portugal, espoliado pelos reis filipinos do seu império na Ásia e não só… – suscitou muitos comentários que sublinhavam a natureza fraterna dos dois estados (não digo “nações” porque nós por cá só temos uma e por lá há muitas e muitas que reivindicam autonomia alargada e mesmo independência).                                           

Bourbon é a dinastia que reina em Espanha apenas desde apenas 1700 com a ascensão ao trono de Filipe V (sucessor do rei espanhol Carlos II), neto do rei Luís XVI de França cujo pai era Filipe duque de Anjou filho do irmão do “Rei Sol”.

A casa real espanhola é, pois, recente, de origem francesa e utiliza o castelhano há relativamente pouco tempo (cerca de trezentos anos) quando comparado com a longevidade dos reinos de Leão e Castela que remontam ao século XI, aliás, como é o caso da antiquíssima monarquia portuguesa.

Embora republicano não deixo, no entanto, de ter muito orgulho pela ascendência do actual pretendente ao trono de Portugal que vem da casa de Borgonha desde o conde D. Henrique de Borgonha (1066-1112), pai do 1º rei de Portugal D. Afonso Henriques.

Por cá nunca houve rei que não fosse genuinamente português.

Poucas casas reais europeias se podem gabar de igual antiguidade e de ascendência de natureza semelhante.

Assim, a casa real britânica tem a sua actual realeza de ascendência germânica (da casa de Hanôver que substituiu a casa de Stuart em 1714), a casa real sueca descende de um marechal (ex-sargento) de Napoleão, Jean-Marie Bernadotte, que reinou sob o nome de Carlos IV, a Holanda surge como reino apenas com o fim da guerra dos oitenta anos (século XVI) e a sua independência da Espanha. e a casa real dinamarquesa é excepção, constituindo, porventura, a casa real mais antiga da Europa (917, com o rei Canuto I).

São apenas resumidos exemplos.

Espanha  foi criação de Isabel “a Católica” (1451-1504), após a expulsão dos muçulmanos de Granada.

O seu neto Carlos V tratou da reunificação do território, colocando sob a mesma coroa para além dos reinos de Leão e Castela e de Aragão (Fernando rei de Aragão era o marido de Isabel de Castela), os de Granada, Catalunha e Navarra. Depois, Filipe II tratou de ficar com Portugal.

Nos tempos de hoje as denominada províncias espanholas são claramente contestatárias àquela unificação, em maior ou menor grau e com particularidades próprias, nomeadamente a Catalunha, o País Basco, a Galiza (esta última cuja língua própria – que faz parte da língua galaico portuguesa - foi inexorável, planeada e paulatinamente “apagada” pelo generalíssimo Franco quando chegou ao poder). A ignorância dos media é, neste domínio como em tantos outros, confrangedora, chegando a afirmar que não, que não, que o país irmão de Portugal é a Espanha e não o Brasil!

Ouvi isto dito por um desses “pivots” de uma dessas cultas televisões. Ó meu Deus, com tanto desemprego que há por aí porque é que não despedem esses “agentes da cultura” e não contratam um competente desempregado?!

Poderão argumentar que esta antipatia é coisa do passado, dos tempos de Aljubarrota, do ódio que Fernão de Magalhães sofreu dos comandantes e tripulações das naus exclusivamente castelhanas cujo comando Carlos V confiou ao português (a quem Fernão de Magalhães prestou lealmente vassalagem, conforme os costumes da época, e que por isso foi perseguido ao longo da sua viagem de circum-navegação pelas naus portuguesas a mando do rancoroso “merceeiro” rei D. Manuel) e da invasão do Duque de Alba na guerra com D. António de Portugal, Prior do Crato, filho legitimado do príncipe D. Luís, irmão do cardeal-rei D. Henrique.

 

Por morte de D. Sebastião, os candidatos ao Trono de Portugal eram:- D. António Prior do Crato, filho bastardo  de D. Luís, filho de D. Manuel, e que por aquela razão foi afastado pela nobreza da linha da sucessão;- O Cardeal D. Henrique , filho de D. Manuel I;- Catarina, Duquesa de Bragança (filha mais nova de D. Duarte, neta de d. Manuel I);- Rainúncio I Farnésio, Duque de Parma (neto de D. Duarte, filho mais novo de D. Manuel I);- Filipe II de Espanha (filho de D. Isabel, filha de D. Manuel I), o qual a troco de ouro subornou quem o poderia nomear;- Emanuel Felisberto de Sabóia (filho de D. Beatriz, filha de D. Manuel I);- João, Duque de Bragança (marido de D. Catarina, bisneto de D. Isabel, irmã de D. Manuel I). Em Santarém o povo aclamou D. António como Rei de Portugal. Este, surpreendido, precavia-se contra a revolta da nobreza e do clero pedindo para limitarem a aclamação a apenas Regedor e Defensor do Reino. A situação era melindrosa, já que se antecipava à decisão dos governadores nomeados pelo cardeal D. Henrique que tinham por missão designar o herdeiro da coroa. A 24 de Julho seria coroado e governaria o continente durante cerca de vinte dias, até ser derrotado pelos exércitos do Duque de Alba que a mando de Filipe II de Espanha invadiu Portugal. Passaria a governar o país a partir da Ilha Terceira nos Açores até perder a batalha naval de Vila Franca ao largo da Ilha de S. Miguel em Julho de 1582. A resistência popular à ocupação castelhana, corporizada por D. António durou, assim, mais de dois anos.

 

(“Que o cardeal-rei D. Henrique fique no Inferno muitos anos por ter deixado em testamento Portugal aos castelhanos” – Quadra popular).

 

Pois, coisas de um longínquo passado se nos esquecermos da muito recente tese do caudilho Franco no início da 2ª Guerra Mundial “Ocupação de Lisboa e da costa portuguesa”. (http://www.publico.pt/temas/jornal/decidi-preparar-a-invasao-de-portugal-18069506).

Também Franco, quando cadete da Academia Militar de Saragoça, elaborou uma tese: “Conquistar Portugal em 28 dias”.

Mas para o historiador Fernando Rosas, tal como o "perigo espanhol" é "uma ideia sempre presente no nosso imaginário", a anexação de Portugal é uma constante na cultura da elite espanhola, desejosa de "corrigir os lapsos que, nos séculos XIV e XVII, tinham permitido a independência de Portugal".

                                          

 

“Hermanos”? Vou ali e já volto.

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publicado por alea às 13:15






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