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Na nuvem do acaso

Quase nada de um pouco de tudo.



Quarta-feira, 11.09.13

O computadorzinho

“ O binómio de Newton é tão bonito como a Vénus de Milo. O que há é pouca gente para dar por isso...” F. Pessoa

O meu relacionamento com os computadores foi sempre especial. Trato-os quase como animais e não como sofisticados mas simples instrumentos de trabalho. Desconfiança, descrença e antipatia colocam-nos no meu mundo nos antípodas das mulheres. Considero-os como tentadores convites à preguiça e inimigos do pensamento. É certo que são e continuarão a ser indispensáveis e potentes ferramentas em muitos domínios da intervenção humana mas não passam disso, não passam de meros utensílios. No "longínquo" futuro, não sei; poderão ser mais do que aquilo (governar, guerrear, julgar, curar, instruir...), perspectiva que me deixa com um misto de apreensão e de esperança. A poesia em particular será sempre, creio, inalcançável para eles.

O primeiro conheci-o ainda estudante, não tinha rival em terras lusitanas, era o orgulho da engenharia civil e ocupava uma enorme sala do LNEC (1963).

O segundo, muito mais modesto, tinha uma capacidade limitada a cálculos relativamente simples e chamava-se Sofia (1970). Foi com ele que dei os meus primeiros passos no mundo da informática e dele guardo saudades pela intimidade e informalismo da nossa relação.

O terceiro, no topo da actividade privada nacional, lançou a pobre Sofia para o esquecimento e para tarefas menos nobres e teve, inclusivamente, honras de pomposa apresentação aos órgãos de comunicação. Ocupava uma área de significativa dimensão, especialmente acondicionada (aparentemente devido à sua frágil saúde) e era conhecido por 1130 (1972).              

                     

Os modos apaparicados como o tratavam e a respeitosa auréola de super-máquina que pairava no ar dos seus aposentos davam-lhe, a ele e aos eleitos que com ele intimamente privavam, um notório estatuto de favoritismo que me encanitava.

Que era indispensável era e que ridicularizava a minha régua de cálculo e a minha calculadora mais-menos-vezes-dividir, também. Mas eu vingava-me denunciando as insuficiências do coitado, como a sua patética dependência de cartões perfurados de sagrada sequência. Se esta não fosse respeitada ou se um furo estivesse fora do seu campo, as consequências eram fatais, porque o desgraçado perdia-se ou lia dez mil em vez de dez.

                      

Apontar e registar as suas fraquezas era o meu sádico prazer quando a ele recorria. Não perdia uma oportunidade de o menosprezar e de mostrar aos seus sequazes que, afinal, todos eles não eram tão importantes e tão indispensáveis como isso. Sublinhava, com um sorriso maldoso, que a maquineta ia ficando velha e que estavam contados os tempos dos seus vassalos.

Como em tudo, profetizava eu, a “democratização” e o avanço tecnológico atingirão a informática de modo fulgurante e, num amanhã não tão distante como isso, cada um de nós, os pobres cá de baixo, disporá em regime de exclusividade de um daqueles escravos. Os génios eleitos riam incomodados.

Eram aqueles tempos de crise difíceis para uma empresa de projecto e qualquer hipótese de trabalho no horizonte era afincada e desesperadamente agarrada. Assim aconteceu num concurso para as terras da Argentina. O curtíssimo prazo e a necessidade de optimizar a solução tornavam indispensável o recurso à 1130. Mas os laboriosos cálculos ocupavam muito tempo pelo que decidi introduzir os cartões no fim do dia e ir recolher os resultados na manhã seguinte, não prejudicando, assim, as prioridades estabelecidas para outros trabalhos em curso.

Na altura tinha decidido substituir a minha já ultrapassada máquina de calcular pelo último grito da moda, gritos cada vez mais frequentes. Tinha como marca o viril nome de Texas (1976), possuía um leitor magnético e ocupava um palmo em vez dos metros quadrados do 1130. 

A novidade conseguiu entusiasmar-me, a ponto de rebuscar na literatura programas de cálculo compatíveis com as suas características e que me libertassem do 1130. Por coincidência, encontrei um perfeitamente ajustado às necessidades do meu baile de tango e depois de algumas adaptações gravei-o na fitinha magnética do “cowboy“. Era só para ver, para comparar resultados e desempenhos.

Depois de mais uma noite de cálculos pelo 1130, resolvi introduzir a solução final na Texas. Liguei-a à corrente, mentalizei-me para uma longa espera e quando estava pronto para sair para o almoço reparei que alguma coisa de estranho se passava. A luzinha vermelha avisadora de final de tarefa ou de erro pusera-se a piscar. Revi o programa e saí. No regresso tive a desagradável surpresa de ver novamente a piscar a luzinha vermelha da maquineta. O problema era provavelmente demasiado pesado, pensei eu, mas, por curiosidade, carreguei nas teclas de resultados e, para meu espanto, lá estavam todos eles. A Texas tinha resolvido em alguns minutos o que o 1130 vomitava depois de um bom par de horas.

Era um triunfo a que não pude evitar de dar a merecida publicidade. Que tinha sido uma excepção, que era um caso particular, respondiam encavacados e contrariados os treinadores e preparadores depois do combate.

Pois sim, “fala que me instróis”.

A verdade, verdadinha, é que o poderoso e experiente 1130 tinha sido posto KO por um novato treinado por mim, o qual, a partir desse dia, foi por mim promovido ao estatuto de computadorzinho.

 

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por alea às 23:41



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