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Na nuvem do acaso

Quase nada de um pouco de tudo.



Terça-feira, 25.06.13

Uma ignorância fantasiosa

"Nothing in the world is more dangerous than sincere ignorance...”

Martin Luther King Jr

Sou um engenheiro muito interessado por História, nomeadamente a de Portugal, o meu país. Também gosto, mas menos, de “estórias”. Por formação e feitio, entendo que o verdadeiro conhecimento só é acessivel ao espírito aberto. Quem quizer conhecer e tiver preconceito, nunca conhecerá a verdade. Esta regra, que considero de ouro a par de outra, a de utilizar a palavra correcta para a transmissão da ideia, tem-me felizmente acompanhado nesta minha vida que agora chegou ao seu Outono. Assim, quase que posso assegurar que sei o que digo, mas cada vez tenho mais dúvidas sobre o que digo, embora no caso em apreço não tenha nenhumas.

Ora bem, as épocas natalícias trazem, não só para as crianças mas também para os adultos, algumas surpresas. Por exemplo para mim, a de receber como prenda o livro “Máscaras de Salazar” (13ª edição).

Quem mo deu, sabe do meu interesse pela história de Portugal e, nela, pelas suas grandezas e misérias, sobretudo pelas suas contestadas figuras.

 

Cito, apenas como exemplos, Afonso Henriques (a quem devemos a nossa nacionalidade, que mal conheceu os pais, que batalhou e mandou prender a mãe), Afonso III (ambicioso oportunista mas que garantiu a independência do reino em plena guerra civil, mesmo contra o irmão - o qual, não entendo porquê, continua ainda em Espanha perdido algures na catedral de Toledo -), Pedro I (ruivo gago, dançante com o povo, crudelíssimo, vingativo capador e canibal arranque de corações), João I (hipócrita, mentiroso e desleal), João II (entre os maiores reis se não o maior, assassino de primos e cunhados), Pedro II (que ao irmão roubou a mulher e o reino), João IV (timorato mas implacável na degola da alta nobreza conspiradora), Pombal (a quem se deve um enorme progresso em muitos domínios, a reconstrução da capital, tudo acompanhado de acções de uma crueldade inaudita que escandalizaram a Europa de então), Salazar (sim, ele também).

De facto, os grandes a quem Portugal deve a sua sobrevivência, agiram, na sua maioria, de acordo com os padrões das sua épocas. Assim foi e o observador atento deve entender que os costumes das épocas marcam o comportamento dos homens que nela viveram. Por exemplo, analisar o regime de Salazar à luz dos comportamentos e hábitos de hoje é, no mínimo, ignorância, facciosismo para não dizer pura imbecilidade.

Esclareço, para que dúvidas não fiquem, que admiro os que exercem o seu poder com rigor, honestidade e desinteresse pessoal. É o que hoje em dia faz falta. Os resultados estão à vista, passados 900 anos desde que somos nação.

Voltando ao livro.

A novidade (estamos em 2007) interessou-me de imediato, não só pelo tema mas também por afirmada precocidade do autor. Logo no início, num género de prefácio, lê-se: “Iniciado há 42 anos, é a recriação de uma crónica pessoal...”. Ora bem e que me desculpem esta minha mania pela correcção e precisão das ideias, sendo a 1ª edição de 1997, a “obra” “iniciou-se” em 1955 . Como o autor (F. Dacosta) nasceu em 1945, redigiu a sua crónica pessoal com 10 anos. Se sim, os meus sinceros parabéns, Mozart começou mais cedo, aos 6 anos, com a composição de obras maravilhosas mas ele era ele e nem todos podem ser como ele, não é?

 

                                     

Chegado à página 166 (13ªedição), li, para meu espanto na 1ª linha do 3º parágrafo, “ O betão armado uma das suas descobertas... (início de citação) consiste...na Guiné...meterem canos de armas...Daí o nome de armado” (fim de citação). A citação é, segundo o escritor, a de o maior engenheiro civil português do século XX, o Sr. Prof. Dr. Eng. Edgar Cardoso.

Foi meu professor no Instituto Superior Técnico. O meu mestre nunca diria a imbecilidade que é citada como sendo dele. Nunca.

O material “betão armado pré-esforçado” é para o engenheiro o que o cão é para o homem: o seu melhor amigo. Não posso, por isso, ficar silencioso. Não posso tolerar inverdades sobre os meus amigos, sobretudo em assunto que leccionei como docente convidado do Instituto Superior Técnico de Lisboa durante mais de 10 anos, mais precisamente na disciplina de estruturas de betão armado, imagine-se. Foi inventado em 1870 (tinha o Prof. Edgar Cardoso “menos 43 anos”) por Joseph Monier. O material constituído pela associação do “betão” (do latim bitumen) com o aço foi estudado para uma sua aplicação a estruturas por François Hennebique em 1886 com a designação “béton armé”. “Armé” sem canos de armas, garantem Monier, Hennebique, eu e os milhares de alunos que ensinei na Universidade de Lisboa.

                                

Também se pode ler, como demonstração de displicência (nada aceitáveis para quem tem a pretensão de escrever historia), no último parágrafo dessa mesma fatídica página, “Quando Salazar autorizou a ponte sobre o Tejo pediu um estudo no qual participei [Edgar Cardoso] com o Duarte Pacheco...” (fim de citação). Poderia contar ao autor do livro a história das pontes sobre o Tejo, desde 1876 (ano em que o engenheiro Miguel Pais sugeriu a construção de uma ponte entre o Grilo e o Montijo) até 2006 (ano em que recentemente se inaugurou a travessia do rio Tejo no Carregado). Isto sem omitir, claro, a comissão nomeada em 1933 por Duarte Pacheco para estudar uma travessia entre o Beato e o Montijo e, sobretudo, a génese da actual ponte 25 de Abril que tem como marco a nomeação, em 1953, de uma comissão para estudar a ligação rodoviária e ferroviária entre Lisboa e a margem sul do Tejo. Dos sete técnicos que constituíam a comissão, o Prof. Edgar Cardoso (que foi engenheiro da JAE até 1951) dela não fazia parte e Duarte Pacheco também não, uma vez que falecera dez anos antes, em 1943.

Estes, Sr. Dacosta, são factos  indesmentíveis, tendo o último ocorrido quando o senhor tinha apenas 8 anos e o Prof. Edgar Cardoso 40 anos.

Depois de tanta fantasia e ignorância, como é possível classificar o livro como uma "obra decisiva para a compreensão do século XX português" (El País) e como é possível acreditar no resto, sobretudo no seu cerne: nas verdades de Dacosta sobre Salazar?


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por alea às 12:36



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